EXPEDIÇÃO

A Expedição catástrofe: por uma arqueologia da ignorância traz no próprio título a perspectiva de saturar, satirizar e ficcionalizar procedimentos estritamente institucionais e peritos e deslocá-los no campo da criação, torção e invenção de outros regimes de visibilidade. Este projeto reverbera pressupostos investigativos das expedições artísticas e científicas que se disseminaram no Brasil a partir do século XIX, em que pintores, gravuristas, botânicos, zoólogos, entomólogos, naturalistas e biólogos compunham missões desbravadoras do Brasil colônia. Nestas alguns artistas como Debret e Rugendas (Viagem Pitoresca e Histórica do Brasil, de 1834); Nicolas Taunay (Paisagem do Brasil); August de Saint-Hilaire (Voyages dans l’Intérieur du Brésil); entre outros projetaram internacionalmente aspectos da fauna, flora, geografia e vida social do Brasil.

O quadro delineado por 32,5 mil escolas rurais fechadas em 10 anos passou a figurar um vasto parque arqueológico disperso no território nacional povoado de ruínas espaciais. Escolas – casebres, escolas-desertos, escolas-ermos; coberturas, paredes e fundações em desmoronamento; ervas daninhas invasoras de equipamentos públicos; quadros negros silenciosos; mobiliários pernetas, esfacelados. Ecos do vazio aberto pelas políticas públicas de educação, agricultura e urbanização.

Refletir sobre esse quadro suscita problematizações mais profundas que extrapolam a geografia remota dessas escolas desertificadas e fechadas. Escancaram dimensões fundantes do sentido de educação, cultura, rural e urbano, que em articulação testemunham sobremaneira um retrato panorâmico do Brasil. O pretexto estético-político aqui apresentado viabiliza processos de formação e crítica de artistas visuais, educadores, gestores públicos, entre outros. Tanto a expedição, quanto a exposição e a publicação configuram plataformas de experimentação e de atravessamentos entre as linguagens artísticas e outras áreas do conhecimento, tais como educação, geografia, ciência política e ciências agrárias. Um projeto cuja tentativa é estabelecer uma evidência e paralelo com as missões artísticas e científicas do Brasil colônia, engajadas com processos de conquista, domínio e captura do próprio território brasileiro, que passa pela produção de conhecimento para viabilizá-los.

No caso da Expedição catástrofe: por uma arqueologia da ignorância, viabilizar o acesso a tais bens culturais relegados à inoperância, à inutilidade, à invisibilidade, por fim, à própria destruição e desaparecimento, evoca uma perspectiva de descolonização da própria dimensão rural deste país. Trata-se de uma contraposição aos regimes de visibilidade hegemônicos substancialmente consolidados pelo axioma da modernidade, que por sua vez passa pela negação do rural. Criar outro regime de visibilidade deste parque arqueológico pressupõe um posicionamento político interessado em evidenciar a agonia dos desígnios da modernidade e suas territorialidades constitutivas.

5 comentários em “EXPEDIÇÃO

  1. Olá boa tarde

    Gostaria muito de participar desse projeto e da discussão. Sou doutora em História da Educação e pesquisei a arquitetura de uma escola em Minas Gerais. A pesquisa não foi de uma escola do campo, mas leciono no curso de Licenciatura em Educação do Campo e pesquiso Instituições Escolares do Campo.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá Geovamma, bem vinda à expedição! Temos muito interesse em contribuições de interessados de toda sorte, e você já traz uma trajetória com grande potencial para aprofundarmos nosso debate! Sabe de alguma escola em sua região que tenha fechado, ou alguma que resita a esse processo na sua região? Onde você leciona no curso de Educação do Campo?

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