mapa das ex-colas de formosa – go

mapa das ex-colas de formosa – go

cartografia>narrada:ouvida:transcrita **

linha de extrema
(16 escolas ou mais)
< estreito > santo estevão > itiquira > extrema > sucruiu > piaiu > barroquinha > riacho dos porcos > lavandeira > riacho do barreiro > projeto paranã > santa leocadia > agua fria > conceição > pindaiba > quilombo >

linha paranã do meio
< cantinho > iris > salobrão > taboca > pitonbeira > palmeira >

linha do lado de lá
(do lado de lá era demais, vinte tantas escola!)

< ana ribeiro > agricola > santa cruz > bezerra > vicente antonio > carreira comprida > bunito > ponte nova > ponte > pedra preta > santo antonio xavier > paranagua > santo antonio dos alves > são joao dos gonçalos > pouso alto > (encerra)

< bisnau > jk > boa esperança > boa vista I > boa vista II > boa vista III > altina neres > alagamar > caldas > cachoeira >

linha divisa vila boa
< Itauna > sucuri > bucanha >

linha vila boa
(emancipou de formosa, indo para alvorada)

< almecega > tamboril > curral velho > destilaria brasil central > altacilha >

das 72 escolas que funcionaram nos anos 2000, hoje são 05 as escolas rurais (multisseriadas e pólos) que estão em funcionamento.
< polo projeto paranã > polo vigilandia > polo palmeira > polo sala da esperança > polo santa mônica

** este texto foi construído a partir de fragmentos coletados da conversa realizada com marilene, no dia 18 de janeiro, na escola rural de extrema (fechada), em formosa.

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Face, Zap e Wifi

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“TEMOS DINDIN > PREÇO 1 REAL
CREMOSO > PREÇO 2 REAL
IOGURTE > PREÇO 2 REAL
SEJA BEM VINDO!”

Parada obrigatória entre o trajeto Cavalcante>Teresina de Goiás>Vão das Almas é a “casa-cantina” da Maria.
(há no terreno duas construções, ambas de tijolos de adobe e impecável cobertura de palha da região, artesanalmente confeccionada por Lúcio).

Todo mundo que para é recebido. De moradores das comunidades quilombolas que trafegam entre o quilombo e a cidade a viajantes que passam para conhecer o Vão.

Quando chegamos em sua venda havia bolinho de arroz, pão de queijo e suco de laranja artificial ou de mangaba natural de frutas colhidas por perto, na região.

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Pra se deslocar pelo trajeto comunidade quilombola<>cidade há um transporte coletivo particular que leva e traz as pessoas de Vão das Almas à Cavalcante e vice-versa (cada trecho sai a a R$25). Além de buscar comida e mantimentos ou fazer consultas exames em hospitais públicos, muitas pessoas usam este transporte mensalmente, se deslocando até a cidade para receber o dinheiro do Bolsa-Família)
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Lá a energia e o celular já deram os primeiros sinais.

Não à toa sua casa-cantina é uma espécie de “SERVIDOR”; de “NUVEM”; de “PONTO DE ENCONTRO” que faz circular as notícias do próprio Vão, seja pela boca de quem chega e sai ou no “leva-e-traz” daqueles que passam por lá via transporte particular que trafega por Vão das Almas, e faz circular também as notícias de fora, vindas com os viajantes-turistas-pesquisadores ou alcançadas pela via tecnológica, que lenta e gradativamente se vê avançar quilombo adentro, pelos cabos elétricos já existentes, sistemas de energia solar ou sinal de comunicação via satélite.

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Na “vendinha”; “casa-cantina”; “servidor-nuvem” da Maria acontece uma singular e surpreendente rede de nomeações contemporâneas:
FACEBOOK é o nome de um dos cachorros, o outro é o WHATSAPP e o gato atende pelo nome de WIFI,  este, as vezes não está: parece viver com sinal fraco.
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“OLHA MEU PESSOAL:
TEMOS FRANGO.10K
TEMOS LINGUIÇA.18K
TEMOS PEIXE.16K
AGRADEÇEMOS A PREFERÊNCIA”

 

 

“EM CAVALCANTE FALOU ESCOLA RURAL FALOU KALUNGA”

Em Cavalcante – GO falar em escola ou em zona rural é falar em quilombo Kalunga.
Os dados da Secretaria Municipal indicam que, das 18 escolas rurais de Cavalcante, 12 são quilombolas.

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64 : era número das escolas rurais em 2001.
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Mas para chegar até elas só de TRAÇADA.

:: TRAÇADA : é a denominação popular para o termo “tracionado”; que pode ser uma caminhonete, ônibus, caminhão ou outro veículo que se desloque por “tração”. É o 4×4.

Diariamente são essas TRAÇADAS que percorrem as estradas das comunidades quilombolas de Vão das Almas – região Kalunga geograficamente acidentada e de difícil acesso.

Mas não há PONTO de parada,
Faz o ponto,
com um pedaço de pau, uma haste da palha do buriti, um ramo tirado do pé de mangaba …
Marca,
no chão mesmo; encostado à beira da estrada de terra.
Tá ai outro TRAÇO (sinal, vestígio) de que alguém vai querer seguir viagem.

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Interessante é que o verbo TRAÇAR, quando se liga ao desenhar torna-se uma, dentre as várias possibilidades do desenho. Assim é que quando executo uma linha estou fazendo um traço no sentido de um corte; delimitando, definindo, demarcando dois ou mais territórios (a estrada corta a paisagem do cerrado), duas ou mais situações, etc. Posso traçar no sentido do planejamento da cidade, da realização de um projeto futuro ou de um plano mirabolante de fuga….
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Traçadas > Rede de energia elétrica > Estradas de terra na paisagem de Vão das Almas

03 indícios.
03 linhas distintas de um pensamento mais amplo (a ser desenhado com o caminhar da Expedição Catástrofe), da qual a reta final indica a reconfiguração do modelo de escola rural (multisseriada) para o modelo de escola rural atual (polo).

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Escola Polo: ponto que reconfigura-desfigura o mapa da escola rural em Goiás.
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vão das almas, fissura na rocha chapada que dá vazão para o cruzamento entre mundos: uma outra realidade.

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tão outra realidade que, às vezes, parece que os objetos que trago comigo podem deixar de funcionar por incompatíveis que são com o contexto:

câmera, carro, celular e até o binóculo que, de lentes industriais, parece ter um microchip interno que pifaria, reaproximando a distância.

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por ironia,

a primeira parada do trajeto nos reapresentou dois cachorros e um gato:

whatsapp, facebook e wi-fi.

E o que é uma escola? Um ranchinho de palha não é escola, então nós mandamos os meninos para as escolas pólo.

No Goyás constatamos que a estatística de 8 escolas fechada por dia é subestimada. Em Cavalcante cujo índice era recorde – 24 escolas fechadas, são pelo menos 46. Em Formosa, onde o registro marcava 8 fechadas, já chegou a ter 72 escolas rurais e hoje são apenas 15, ou seja, foram fechadas 57.

E porque você acha que estão fechando tantas escolas?”, perguntei pro Sr. diretor de um assentamento rural de mais de 20 anos num dos epicentros do território das monoculturas do Goyás,

AGROBUSINESS,

AGROSSESMARIAS (conforme a sinalização do KM 39):

_ E quem num sabe moça? É por causa do liberalismo. É o patriarcado. Eles não querem que a gente tenha conhecimento.

Quando falei da estatística, que reposicionava o caso daquela escola frente aos contornos nacionais, as tais 8 fechadas por dia, ele terminou:

_ Mas tantas assim? Eles querem mesmo a gente tudo analfabeto. Tem um nome que explica isso tudo: Ronaldo Caiado….

Eu completei:

_ O Coronel …..

_ Isso mesmo minha filha, o Coronel

*

A secretária de educação nos recebeu depois de vários arremessos livres de um  funcionário para o outro, desses sintomas do desgoverno e da ausência de qualquer perfil técnico na configuração desses órgão público.

_ Aqui no município nós não fechamos NENHUMA escola, falava visivelmente incomodada, olhando para todos os lados sem se fixar em nada. Nós últimos 50 anos, não fechamos nada.

Na sequencia, o celular tocou:

_ Bom dia presidente! E mais algumas alcunhas e cumprimentos de teor servil para no final concluir:

_ Qual é o nome da menina? Em qual escola? Pode deixar Sr. presidente eu arrumo tudo pra ela.

*

 

 

 

Ex-cola 1: no deserto de agosto

Alô alô, cambio

Primeiramente Fora Temer!

Segundamente, UAU Tande! Muito útil seu trabalho, pro Goiás é uma tabela-atalho de municípios para onde podemos nos arremessar. Te agradeço abraçar a causa de todas regiões nesse ímpeto estatístico, tão árduo pra mim. Me trouxe muita clareza e imagino que hoje a situação é mais alarmante, pois os dados são de 2013. Li recentemente outra reportagem, dizendo que de 2013 em diante a média de fechamento sobe de 8 para 10 escolas/ dia. Notei por exemplo, Cavalcante uma cidade na Chapada dos Veadeiros com expressiva ocupação quilombola (talvez o maior território quilombola do Goiás) teve o maior índice de fechamento das escolas rurais, 24 escolas em 2013, que tal?

Reparem: fizemos a primeira expedição. Foi incrível, foi acidental, estávamos numa viagem de férias pra Pirinópolis, eu, Pedro, Filipe e Aurora e nas nossas andanças pelas cachus, descobrimos uma vã escolar no Santuário selvagem, uma RPPN, lugar de visitação ecoturística …
Assuntamos se ele fazia transporte rural, ele disse SIM e perguntamos se ele sabia de alguma escola rural fechada e outro SIM… detalhe da história, o motorista foi aluno nesta escola rural e hoje é motorista de van escolar que trás todos os dias os alunos rurais para ter aula na cidade passando pela frente das ruínas da escola em que estudou! … Foi uma conversa interessante, ele expôs pontos que não vou me estender aqui sobre essa nova lógica do transporte. Percebemos que este também pode ser um caminho para encontrar as escolas, falar com a empresa de transporte escolar.

A descoberta nos levou a uma estrada desoladora, a seca aqui está no clímax e os ipês arroxeiam alguma esperança. Após 6 longos quilômetros de dúvida, são muitas construções com feição de abandono, uma revelação inconfundível. Na beira da estrada, sem eira nem beira estava a casa demolida, não só abandonada, ex-cola, escola em frangalhos. Uma tarja azul à óleo fazia um barrado, quase um uniforme estraçalhado. Só o fogão a lenha restava com alguma integridade. Estávamos um pouco desprevenidos, e fizemos o registro com o celular.

Deu pra sentir a vastidão do campo, ali a euforia de encontrar se misturou com uma inconformidade colossal.
Conversamos muito, os meninos reportarão tb outras questões.

 

Abraço afetuoso,

1.2.3 câmbio desligo

Cacá Fonseca